A que me deve falar de junho passado somente agora?
Talvez pela impossibilidade do acesso, por ter ficado"sem rádio e sem notícia da terra civilizada" nesses dias.
E que importância tem o mês que acabou de ser arrancado da folhinha?
É porque são muitos os ensejos contidos no contexo de seus 30 dias, e eles fazem toda a diferença em minha vida.
Começando pelo nome, que deriva de "Juno", deusa do panteão romano, filha de Cronos e Reia. Está relacionada com a representação da força feminina, da fertilidade, do casamento e da fidelidade conjugal.
Tendo a Sra. Olimpo tanta responsabilidade no que diz respeito à uniões conjugais, vem Santo Antônio como parceiro, para fazer valer todas as velas que são acendidas no dia 13, como uma esperança aos que passaram o dia 12 sem companhia.
É um período de datas importantes, como o dia mundial do meio ambiente, da liberdade de imprensa, da língua portuguesa, da marinha do Brasil, do cinema brasileiro, do pescador e até dia nacional do progresso!
É, muita gente não sabe...
Foi quando Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas e também quando os Beatles lançaram "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band". Outros tesouros musicais também surgiram nesse período, e se a gente canta com Raul Seixas, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Chico Buarque e Paul McCartney, é porque nasceram em um junho mais passado que o derradeiro.
Enquanto Lampião comia macaxeira e reinava na seca do Nordeste, os fidalgos bebiam moët chandon e dançavam as valsas de Straus pelos salões da Europa, ambos frutos do calendário junino. E quem se encanta com Exupéry, Fernando Pessoa, Sócrates e Suassuna também deve glórias à Juno.
Pelo riso que se faz em lágrimas, é preciso dizer adeus aos que nos deixaram no mês 6: Chico Xavier, Carl Jung, George Bizet, Nara Leão, Paulo Leminski, Camões, Mazzaropi, Ray Charles, Carlos Gardel, João Nogueira, Saramago e Chacrinha. Foram brilhar no céu... viraram estrelas no céu de São João! Salve São joão! E que viva sempre o seu festejo nas noites coloridas e mais belas do ano. Salve o homem santo que nos dá o batismo.
Cabem nos festejos de junho a comemoração do dia universal de Deus e da renovação espiritual, e ainda dia para São Pedro e São Paulo. E foi em São Paulo que nasceu Clarice Ribeiro, no dia 21 de junho. Ela se tornou mãe, teve um filho chamado Ivan. Vieram morar na Bahia, não sei em qual data, só sei que tinham mesmo que chegar aqui!
É que em 2010 Ivan e eu precisávamos nos encontrar nessa vida. O amor nos esperava num encontro marcado para o mês de junho, no mesmo dia 21 da sogra. No mesmo dia do solstício que dá início ao inverno para nós do hemisfério Sul. Dia do yoga, do aperto de mão, da mídia do intelectual e de São Luis Gonzaga, patrono da juventude. Dia que vieram ao mundo Alexandre, o Grande, Jean-Paul-Sartre, Benazir Bhutto, Nelson Gonçalves e Machado de Assis, sendo esse último um "quase" padrinho do nosso enlace. Não só por conta de nossos encontros atrapalhados, mas também por essa série de simbolismos e datas, dignas de um conto machadiano. Acho que era também porque eu estava a ler Dom Casmurro quando nos conhecemos. E também porque era junho, e, é claro, porque tinha que ser!
"Não se luta contra o destino; o melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos. "
(Machado de Assis)
PS: do dia 15/06/2011 foi dia do eclipse total da Lua.
Essas coisas da vida, assim sem mais... Recordando, rabiscando pensamentos, divulgando uma coisa ou outra, uma notícia qualquer. Divagando as chatices necessárias, falando besteira, rasgando seda, afogando tristezas, abanando brasa e falando de coisas alheias. Nos dias de tédio, uma página em branco. Dias de páginas em branco nem sempre é tédio. E, qual é o remédio? Ser aleatório e maciço, pois de gente quadrada e oca o mundo já está farto.
terça-feira, 5 de julho de 2011
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Memórias de fogueiras e bandeirolas
"Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente."
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente."
(Profundamente, Manoel Bandeira)
Onde estão as noites de São João?
Onde ficaram guardados os trajes de chita, os chapéus de palha,
as fitas coloridas?
Corações de crepom, bandeirolas ao vento,
a saudade mora nas fagulhas que rumam ao céu.
Doravante, será o "cordel dos esquecidos", no "arraiá dos deletados".
Sem eira nem beira, as memórias de fogueiras queimam solitárias,
acesas nos quintais da lembrança.
A ciranda das crianças dorme cedo, e virou tudo do avesso:
caipira agora é country; nem bombinha, nem traque, pois a pólvora já "bufou".
Feliz daquele que escutou o som de uma sanfona nesse São João.
Glória ao homem Santo que vive em meu coração,
profundamente...
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Ismália
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
Alphonsus de Guimaraens
Não sou Ismália mas confesso que a lua de hoje me fez lembrar das escadas que me levam à minha torre.
São as mesmas que, quando acompanhada, já puderam também me levar ao céu.
Reflexos atiçam ao mergulho e vem ter comigo, mais uma vez, a recordação:
Da janela vê-se a lua, do colchão ouve-se o mar, e eis um par de almas que se habitam no instante.
Do resplandecer da lua ao canto do mar, somos cúmplices do acontecido.
O céu estava enluarado, o mar jogava agitado,
e então, fez-se o nosso amor.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Corridinho
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
Adélia Prado
Em homenagem ao mês em que me descuidei.
O amor me pegou,
me comeu,
me molhou toda.
Mas me mostrou que água ele não é!
quarta-feira, 1 de junho de 2011
E começa um mês cheio de boas histórias...
"A beira da sua anágua na poça d'água molhou
Ao chover de madrugada é o dia que chegou
Na sola do seu sapato mina água, nasce flor
É o canto do desejo, é um cheiro de amor
De maré, devagar
Se eu sou um voyager
O que eu sinto por você
Só você sabe o que é
Não precisa mais falar
Quando a história começa
É quando ela acabar"
(Acaba Quando Começa / Saul Barbosa)
Tudo que faço, canto, danço, represento ou escrevo é vitrine do que sou.
Tudo que mora em mim precisa, às vezes, passear pelo mundo à fora.
Quero narrar a minha canção de amor e vida pelas entrelinhas deste muro virtual.
Quero falar do mês que hoje se inicia, seus festejos, seus santos, seus olhares e seus enlaces.
O vento de maio soprou pra mim o sentimento em forma de mês, me trouxe o frio de junho, e um grande amor para me aquecer.
Aqui começa uma estrada que não tem mais fim...
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Céu de maio
Um risco de pólvora dá vida ao pavio da lembrança e na distância do que já vivi é que mora a memória.
Em mim mora o dom de ser menina, de ser criança, junto à cisma de não deixar ir embora o pretérito das minhas cantigas.
A florida da estação me remete a outonos de outrora, tempos de ser protagonista de sonhos, narradora de emoções, dias em que reinava no mundo mágico.
Merecia até ser princesa ao fim da tarde, quando sentava sobre os joelhos para ver o sol, em despedida na moldura da janela.
No instante do agora é a aurora que me chama pelas frestas. Ainda protagonizo sonhos e narro emoções, continuo a transitar pelo mundo mágico do meu ser.
Quando em vez, espio pela janela. Não mais aquela, agora a do andar de cima. Espreito o céu de maio, crépúsculos e opúsculos, procuro os mesmos raios de sol. Procuro a mim e me acho.
Encontro em mim um espaço, o que era, o que sou.
Eis-me eu, difusa pelo vento.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
"Nó de eu"
Escrever é preciso, mas não é o meu ofício.
Por isso, as páginas em branco ao longo dos dias.
Por isso também que perco no quesito "talento",
que não impressiono tanto quanto gostaria.
É que tem dias em que eu só queria ser livre,
ainda que fosse de mim mesma.
Antes fosse apenas o céu de maio,
suas nuvens, pingos d'água, tons de cinza.
Tento ver o que vem além, mas quem volta
pela estrada nada me diz, e quem me acompanha
às vezes esquece o caminho ou, quem sabe,
ainda trilha por outros rumos.
Já não sou mais superfície: atirei-me nas águas do tempo
e repouso no fundo. No movimento das águas eu
vivo. Sou pedra, serei pó, por vezes só.
Por hora, um "nó de eu".
Eu queria saber o que nos espera, o que me reserva a próxima
estação. Um calor no coração? O vento de maio se faz
monção. Emoção era o que queria, mas hoje sou
apenas a saudade das folhas
que o outono tem
levado.
levado.
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